Postado em
O LEITOR PERGUNTAÀ 1h, às 2h
Um de nossos leitores bem observou que o sistema operacional do nosso blog emprega o artigo no plural antes da uma hora. Assim, quando nos pomos a escrever logo depois da meia-noite, aparecem as frases "postado às 0h30", "postado às 1h15" etc.
De fato, está errado. O artigo deve, sim, concordar com o número de horas. O texto foi postado à 1h, foi postado à 0h15 ou foi postado às 2h.
Agadecemos a colaboração do leitor e vamos tentar corrigir isso no sistema.
Postado em
“Claro” ou “é claro”?
“As vítimas do sistema dançaram a música do sistema. Foram iludidas, é claro.”
“Claro que não quero ver o mundo afundando na crise...”A expressão de realce é “é claro”, não apenas o adjetivo “claro”. O primeiro texto em epígrafe, portanto, está correto. É muito comum, entretanto, encontrarmos apenas o adjetivo “claro” entre vírgulas no lugar da expressão “é claro” (“Foram, claro, iludidas”; “Ele, claro, foi iludido” etc.). Convém empregar sempre a expressão “é claro”.
Mais importante ainda é fazer isso quando se constrói um período composto,como se vê na segunda frase em epígrafe. Observe que o redator usou o adjetivo “claro” seguido de uma oração iniciada pela conjunção integrante “que”. Essa conjunção introduz orações substantivas. Cumpre descobrir qual é relação sintática que se estabelece entre o adjetivo “claro” e essa oração.
Na verdade, a idéia é dizer que alguma coisa “é clara”, “é óbvia”, “é evidente”. O ideal, portanto, seria usar a forma verbal “é” antes do adjetivo “claro”, criando, dessa maneira, uma oração principal cujo sujeito é a oração subordinada subseqüente. Assim:
“É claro que não quero ver o mundo afundando na crise”.
Postado em
A informação “vaza” ou “é vazada” ?
“Tarso diz que documentos da Abin apreendidos pela PF estão lacrados e não serão vazados”Diz-se que uma informação “vaza” quando chega ao conhecimento de outras pessoas por denúncia, engano, indiscrição ou negligência. Nesse sentido, o verbo “vazar” é intransitivo. Em outras palavras, não é a pessoa que vaza a notícia; a notícia é que vaza.
Ocorre também o emprego desse verbo como transitivo indireto, em construções do tipo: “A informação sigilosa vazou para a imprensa”.
Assim, não cabe empregar esse verbo na voz passiva (somente os transitivos diretos admitem a voz passiva). No lugar de dizer que a informação foi vazada, diz-se que a informação vazou.
A idéia de “vazar” (nesse sentido) pressupõe o desconhecimento do responsável pela divulgação. Caso o agente seja conhecido, o ideal é dizer que “divulgou” a informação. Havendo a incerteza sobre o agente, diz-se simplesmente que a informação vazou.
Abaixo, o texto reconstruído:
Tarso diz que documentos da Abin apreendidos pela PF estão lacrados e não vazarão
Postado em
As novas ideias
Vai parecer muito estranho à primeira vista, mas a nova ortografia do português já será uma realidade a partir de 1º de janeiro de 2009.
Este blog vai tratar do assunto “em doses homeopáticas” para ajudá-lo a fixar as mudanças.
Hoje tratamos da antiga regra do ditongo aberto em sílaba tônica, que era muito simples, pois, sempre que apareciam na sílaba forte da palavra, os tais ditongos eram acentuados graficamente. Assim: chapéu, céu, herói, heróico, pastéis, assembléia etc.
Muito bem. Da pequena lista acima, alguns manterão o acento, outros não. Se se tratar do monossílabo (palavra de uma sílaba só) tônico, o acento permanecerá. É o caso de “céu”, bem como de “réu” e de “véu”.
Se a palavra for oxítona (a sílaba forte é a última), o acento continuará onde sempre esteve. Assim: “chapéu”, “herói”, “pastéis”, bem como “solidéu”, “corrói” (forma verbal) e “anéis”, entre muitas outras.
Finalmente, vamos adentrar o terreno da mudança: palavras paroxítonas (a sílaba forte é a penúltima) cuja sílaba tônica contenha um dos ditongos abertos. Assim, o que era um boa “idéia” passa a ser uma boa “ideia”, bem como “assembléia” passa a ser “assembleia” (vão mudar, portanto, a grafia dos nomes oficiais de todas as Assembléias Legislativas do país e a grafia do nome da igreja Assembléia de Deus).
Da mesma forma, um ato que hoje é “heróico” passará a ser apenas “heroico”. E quem duvida de que existe em português uma palavra terminada em “-éua” engana-se. Existem algumas com essa terminação, que, naturalmente perderão o acento gráfico. Um exemplo é “jarandéua”, nome de uma árvore, que, diga-se de passagem, já tinha uma variante sem acento (“jarandeua”), que passará a ser a única forma correta.
O fato de o acento desaparecer não mudará a pronúncia habitualmente usada no Brasil. A reforma atinge apenas a grafia. Em tempo: o substantivo “colmeia” já era grafado sem acento mesmo no português do Brasil, porque, embora a nossa pronúncia mais comum sempre tenha sido a aberta, havia hesitação entre o som aberto (éi) e o fechado (ei). Agora, brasileiros e portugueses escrevemos de um jeito só, mas certamente continuaremos a pronunciar cada um à sua maneira.
Postado em
A parte de que menos gostam
“Pesquisa Datafolha revela qual a parte do corpo que os jovens menos gostam”Leia com atenção a frase acima, que foi usada como subtítulo de matéria. Nela ocorre um defeito de construção típico da linguagem oral – a anulação da preposição que deveria estar regendo o pronome relativo “que”.
Pessoas gostam ou não gostam de alguma coisa. A preposição “de” deve, obrigatoriamente, anteceder o complemento do verbo “gostar” – mesmo que ele seja um pronome relativo (e, nesse caso, anteposto ao verbo, como na frase em epígrafe).
Assim:
Pesquisa Datafolha revela qual a parte do corpo de que os jovens menos gostam
Postado em
Crase antes de plurais
“A proibição da cobrança já constava em regulamento de TV por assinatura que entrou em vigor em junho. O texto confuso do documento, porém, dava margem à diferentes interpretações --a ABTA, por exemplo, entendeu que poderia continuar cobrando a mesma coisa.” No fragmento acima, publicado no site
Folha Online, vemos o “a” incorretamente acentuado. O redator entendeu ter ocorrido crase e aplicou o acento grave na preposição “a”.
A crase, como sabemos, é a fusão de dois sons vocálicos (hoje se verifica apenas a fusão da preposição “a” com os artigos definidos “a” e “as”, bem como com os pronomes demonstrativos “a” e “as” e com a vogal inicial dos demonstrativos “aquele (s)”, “aquela (s)” e “aquilo” e com a vogal inicial dos pronomes relativos “a qual” e “as quais”).
A preposição “a”, na frase em questão, não se fundiu com artigo – e isso é facilmente perceptível porque, diante de um substantivo no plural, só poderia haver um artigo no plural (para haver crase, seria necessário um artigo “as” antes de “diferentes interpretações”).
Na verdade, não ocorre crase porque não ocorre artigo na construção “dava margem a diferentes interpretações”. O “a” que antecede um termo no plural nunca é craseado. Veja, abaixo, a frase corrigida:
A proibição da cobrança já constava em regulamento de TV por assinatura que entrou em vigor em junho. O texto confuso do documento, porém, dava margem a diferentes interpretações --a ABTA, por exemplo, entendeu que poderia continuar cobrando a mesma coisa.
Postado em
Vírgula pode mudar o sentido da frase
“O ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências, Gustavo Loyola, por exemplo, acredita que os pacotes de salvamento anunciados até agora pelos Estados Unidos e pelos países europeus têm força suficiente para diminuir sensivelmente o estado de pânico que predominou no mercado nas últimas semanas.”A questão gramatical suscitada pelo fragmento selecionado diz respeito ao uso da vírgula antes do nome do ex-presidente do Banco Central.
Antes de abordar esse caso, em particular, é bom lembrar que o aposto explicativo, que fica necessariamente entre vírgulas, traz uma informação de caráter redundante. Em outras palavras, cabe ao aposto dizer novamente (de modo mais explicativo ou específico) aquilo que foi dito imediatamente antes dele.
Os exemplos falam por si: “Tiradentes, o mártir da independência, teve seu corpo esquartejado” (“o mártir de independência” é “Tiradentes”), “O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fez mais declarações sobre a crise econômica dos Estados Unidos” (“Luiz Inácio Lula da Silva” é “o presidente da República”). Entre o aposto e o fundamental, existe uma relação de identidade.
Muito bem. Tendo caráter explicativo, o aposto deve ficar entre vírgulas. Daí, para simplificar, podermos dizer que, se existe apenas um presidente da República, naturalmente o seu nome será um aposto explicativo quando posto depois da expressão “o presidente da República”.
Existe apenas um presidente da República, mas há vários ex-presidentes da República, o que faz diferença na hora de colocar as vírgulas. Agora estamos diante do aposto especificativo, uma modalidade de aposto que não admite a pausa. Esse tipo de aposto, como diz seu nome, é geralmente um nome próprio a especificar um nome comum ou uma palavra de sentido estrito a especificar uma palavra de sentido mais amplo.
É por isso que existe aposto especificativo em expressões como “rua das Palmeiras”, “leite Ninho”, “presidente Lula”, “cidade de São Paulo” etc. Observe que a relação de identidade é preservada, mas o aposto torna mais específica a palavra anterior, de sentido geral. É nesse grupo que se inserem todos os “ex”, especificados pelo nome próprio. Assim: “O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola declarou estar preocupado com a crise”, “O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso compareceu ao evento”.
Tal situação leva alguns a automatizar o uso da vírgula: se houver um “ex”, não haverá vírgula! É preciso, porém, cuidado. No caso que estamos examinando, temos duas circunstâncias: trata-se de alguém que foi presidente do Banco Central e hoje é sócio de um escritório chamado Tendências. Nessa situação, de ex-presidente do BC e de sócio do escritório Tendências, existe apenas uma pessoa: Gustavo Loyola. Assim, trata-se de aposto explicativo (só pode ser ele, não outra pessoa), não de aposto especificativo (pode ser qualquer nome capaz de especificar um termo de sentido amplo ou, em outras palavras, pode haver vários). Verificamos, assim, que a frase original está correta, com a vírgula do aposto explicativo, pois só existe um ex-presidente do Banco Central que seja sócio do escritório Tendências.
Postado em
"Box" ou "boxe"?
“O box do chuveiro estourou, enquanto a dona [da casa] tomava banho.”O assunto são as casas do bairro paulistano do Butantã que vêm sofrendo avarias em razão das obras do metrô. Muito bem. A questão gramatical, certamente menos aflitiva que a vivenciada pelos moradores do Butantã, é a grafia da palavra... “boxe”!
Sim, em português, não existe a palavra “box” – em nenhum dos sentidos em que é empregada.
O compartimento do banheiro destinado ao banho de chuveiro é chamado (aqui, no Brasil) de “boxe”. O termo também designa os compartimentos de uma cavalariça (as baias) e, por extensão, cada um de uma série de compartimentos separados entre si por divisórias (em banheiros públicos, por exemplo, cada cubículo é um boxe).
Nas corridas automobilísticas, também se usa a palavra: cada um dos espaços onde as escuderias montam as suas oficinas para atendimento dos carros que disputam a prova chama-se “boxe” – sempre com a letra “e” no final.
Em editoração, usa-se o termo “boxe” para nomear a parte de uma página impressa, diferenciada do resto da página graças, basicamente, à utilização de fios ou cercadura. O recurso é muito comum em jornais e em livros didáticos.
Permeia todos esses sentidos a idéia de “compartimento pequeno” ou “caixa”, significados básicos da palavra inglesa “box”, que adquiriu, em português, a forma “boxe”.
A luta entre dois contendores que, com luvas apropriadas, se enfrentam – um tentando derrubar o outro com murros – é a luta de “boxe”, o esporte olímpico conhecido também como “pugilismo”. O nome deriva do inglês “boxing” (“luta que se pratica com os punhos fechados”), que vem do verbo “to box” (“bater”, “surrar com os punhos”).
Usemos, portanto, a grafia “boxe” em quaisquer circunstâncias.
“O boxe do chuveiro estourou, enquanto a dona [da casa] tomava banho.”
Postado em
Texto recomenda a executivos que evitem o gerundismo
Foi publicado na
Gazeta Mercantil (edição de 2 de outubro de 2008), sob a rubrica “Carreira”, artigo em que executivos são aconselhados a evitar, a todo o custo, o emprego do gerundismo, tachado de “vício de linguagem que se tornou uma espécie de praga nas empresas”.
Muito já se falou sobre esse emprego inadequado do gerúndio (“vou estar encaminhando os documentos”, “vai estar pedindo a mercadoria” etc.), mas, nesse artigo, salta aos olhos a razão pela qual o meio empresarial condena tal prática lingüística. Diz o artigo: “Por estar associado aos níveis mais baixos da hierarquia empresarial, usar expressões como ‘vamos estar reestruturando’ soa como palavrão quando pronunciadas por um executivo” (sic).
Muito bem. Estamos diante de um caso explícito de preconceito lingüístico, ou seja, a construção deve ser banida por supostamente estar associada aos níveis mais baixos da hierarquia empresarial.
Registre-se aqui que esse tipo de comportamento em nada ajuda a compreender as características e sutilezas do idioma, muito menos a refinar e a tornar precisa a expressão do pensamento.
Postado em
Homônimos podem causar confusão
"Não podemos mais errar, pois teremos apenas um jogo para concertar qualquer bobagem."O que vemos na frase acima, extraída de texto publicado na
Folha de S. Paulo, é uma confusão entre duas palavras muito parecidas:
concerto e
conserto. A pronúncia delas é exatamente a mesma, o que favorece a hesitação entre uma forma e outra, mas à sutil diferença de grafia corresponde uma considerável diferença de emprego.
“Concertar”, com a letra C, quer dizer “harmonizar”, “conciliar” (“concertar opiniões divergentes”), “pôr em ordem”, “ajustar” (“concertou a gravata”), “combinar” (“concertamos uma viagem”), “concordar” (“concertaram em adiar a reunião”) etc. É dessa idéia de harmonia que vem o uso do termo “concerto” como composição musical (para instrumento solista acompanhado de orquestra).
No trecho em destaque, a intenção do redator era usar o verbo “consertar”, com a letra S, que significa “corrigir”, “emendar”, “remediar” ou mesmo “reparar”, “restaurar” etc.
Enfim,
“não podemos mais errar, pois teremos apenas um jogo para consertar qualquer bobagem”. Essa era a idéia.